Cães, bikes e um papagaio

Texto divertidíssimo de José Teles (Jornal do Commercio, 17 de março de 2013) que além de contar, no final, um episódio bem pitoresco, tira onda com os novos modismos da classe média recifense:

A gente tava na Mamede Simões, no Barbosa, cubando o movimento, entornando o precioso líquido, e confirmando que a vida é um eterno aprendizado. Descobrimos nesta noite que vira-latas sabem distinguir bike de bicicleta. A diferença, minha senhora, não é apenas no inglês. Está também no modelo da bicha, e no jeito de quem vai montando nela. Os cachorros sacaram isto. Como assim? Elementar, minha senhora, eles só latiam e corriam atrás de sujeitos que passavam de bicicletas. Pro pessoal de bike, os vira-latas tavam nem aí.

Talvez seja porque os que andam de bicicleta não têm tempo para o comportamento politicamente correto. Nesta noite mesmo, um deles, acuado por um vira-lata da Mamede, acertou-lhe o maior chute no focinho. Ou acertava, ou o cachorro acertava-lhe uma dentada no calcanhar. Um de bike jamais chutaria as fuças de um cachorro. Ou melhor, de um pet, que um piloto de bike, obviamente, trata cachorro por pet. E este, o pet, por sua vez, jamais acua alguém de bike. O cão pet, ao contrário do vira-lata, é um bicho politicamente correto, conforme a gente tá cansado de ser no feissebuqui.

No feissebuqui, as pessoas costumam mostrar que gracinhas os pets delas são. O que mais se vê no feissebuqui, pela ordem: criança, pet e Clarice Lispector. Agora, só tem direito a ser chamado de “pet” gato ou cachorro, que ninguém politicamente correto cria outro tipo de animal (a senhora me corrija se não se pode mais chmar pet de animal). Os costumes vão mudando e, quando menos se dá fé, você se pergunta: que fim levaram os papagaios?

Antigamente, as pessoas costumavam criar papagaios. Os psitacídeos eram inteligentíssimos, sabiam os nomes de todos os moradores da casa, cantavam músicas conhecidas, assoviavam, caprichavam no palavrão. Só não apareciam no feissebuqui porque, naqueles tempos, feissebuqui não existia nem em filme de ficção.

Porém, o papagaio tinha o inconveniente de falar demais. Feito um lá de Água Fria. A história, quem me contou foi donaEdna Costa, que foi, não foi, baixa na mesa da gente. Num papo à toa sobre o bicho, Edna se lembrou do papagaio do vizinho dela em Água Fria. Esse vizinho era comunista e arraesista. Deu-se o golpe de 64, e os soldados do Exército foram à casa dele, denunciado como perigoso agente do comunismo internacional. Nel ele confessou, nem encontraram nada comprometedor. Os soldados já iam embora, quando o papagaio, que se revelou o maior cabueta, começou a cantar o hino da Internacional Comunista, na versão em português: “Bem unidos façamos / nesta luta afinal / uma terra sem amos / a Internacional”. Os soldados deram meia-volta, volver. Enquanto o coitado do seu dono ia sendo levado, aos safanões, o papagaio, achando pouco, danou-se a cantar: “Votar em Arraes / eu também quero / eu também quero / eu também quero”. Resumindo. O dono do louro passou um tempo recolhido, acusado de subversão. Libertado, voltou pra casa, e a primeira coisa que fez foi tirar satisfações com o papagaio. Teve um fim triste, o cabueta.

diariodevidas:

Padre Reginaldo Veloso, de tantas lutas e caminhadas passadas, esteve ontem, 26 de junho, na passeata promovida pelos estudantes no Recife, capital de Pernambuco.

diariodevidas:

Padre Reginaldo Veloso, de tantas lutas e caminhadas passadas, esteve ontem, 26 de junho, na passeata promovida pelos estudantes no Recife, capital de Pernambuco.

Comunista apanhando na passeata do Recife! 
Não gosto de comunas, acho uma gente potencialmente perigosa, mas isso também é demais. Umas vaias já bastariam.

Comunista apanhando na passeata do Recife!

Não gosto de comunas, acho uma gente potencialmente perigosa, mas isso também é demais. Umas vaias já bastariam.

Sport e as imobiliárias

Li hoje no jornal o discurso do candidato da oposição do Sport, Homero Lacerda, contra as propostas tresloucadas da atual administração do clube. Finalmente alguém resolveu falar claramente a verdade: estão destruindo o Sport em prol do mesmo tipo de empreendimento imobiliário que desgraçou a cidade (espigões). Todos os que querem que o Sport continue a ser um clube esportivo devem dar um basta nisso, sem, contudo, abrir mão das necessárias renovações (segundo Homero é possível construir uma nova arena sem vender a alma rubro-negra).

Nossa “Boca do Inferno” e a liberdade de opinião

Li agora a pouco uma antiga reportagem que tinha guardado entre meus papéis e que fala do lançamento de um livro de Fátima Lima sobre as crônicas de Carneiro Vilela (já deve ter sido lançado a essa altura, pois o recorte de jornal é de janeiro de 2011). O escritor, fundador da Academia Pernambucana de Letras e autor do conhecido A Emparedada da Rua Nova, também foi um cronista de nossos jornais no século XIX, fazendo um papel semelhante ao de Gregório de Matos, e, por isso, igualmente esquecido pelos desafetos após sua morte. De qualquer forma, o que me chamou a atenção no texto foi um trecho que fala da liberdade circulação de idéias na época do Segundo Reinado e que reproduzo abaixo:

As crônicas para a imprensa de Carneiro Vilela serão reunidas em livro ainda neste ano. O prefácio ficará a cargo de Anco Márcio Tenório Vieira, professor do Departamento de Letras da UFPE. Ele ressalta que as polêmicas deram o tom do século XIX, particularmente na sua segunda metade. Algumas delas se tornaram célebres, a exemplo das que foram protagonizadas por José de Alencar e Joaquim Nabuco, o General Abreu e Lima e o Cônego Pinto de Campos. “Isso foi fruto não apenas de um século onde as palavras mudança e revolução estavam na ordem do dia, mas também, no caso do Brasil, da liberdade de pensamento e de imprensa que tanto caracterizou o Segundo Reinado. Acredito que essa liberdade só vai se repetir no Brasil com o nosso último processo de redemocratização, nos anos de 1980”, aponta o professor.

Aqui fica mais uma vez claro como perdemos com o golpe republicano de 1889.

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